Grupos Maristas do RS

#FicaDica Entrevista com Pe. Hilário Dick

Dica de Encontro,

Fonte: Eai? Tchê!

Hilário Dick

Pe. Hilário Dick durante um Encontro Estadual de Jovens no RS.

(..) a Equipe Eaí?Tchê Passo Fundo, entrevistou Hilário Dick, produtor de diversos estudos sobre juventude. Hilário é Padre Jesuíta, e além de trabalhar e pesquisar o tema, é especialista em história da juventude, Pastoral da Juventude e evangelização da juventude na América Latina.

É graduado em Letras e em Filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Além disso, graduou-se também em Teologia pela Pontifícia Faculdade do Colégio Máximo Cristo Rei. Mestre e doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, é professor na Unisinos e coordenador do Observatório Juvenil do Vale/Unisinos.

O senhor acredita no protagonismo juvenil. A seu ver o que é isso e no que implica? 
Pe. Hilário Dick: Acredito no protagonismo juvenil assim como acredito na grandeza da pessoa humana. Quem não defende este protagonismo e se diz cristão, tem problemas de fé. O grande discurso de Jesus Cristo aos jovens refere-se a isso: Levanta-te e anda! É a pessoa ser ela mesma, ter personalidade, ter autonomia. Tratando-se do relacionamento do adulto com o jovem/adolescente, trata-se de uma atitude pedagógica e teológica de ajudar o outro/a a ser ele/a mesmo/a. O documento 85 da CNBB é muito claro na “defesa” do protagonismo. É uma questão muito séria na Igreja porque se trata da questão do poder e o poder é o tendão de Aquiles da Igreja, de hoje e de sempre. Infelizmente nas JMJ não se vê protagonismo juvenil acontecendo ou sendo fomentado.

Como avalia a relação da Igreja (instituição) e juventude?
Pe. Hilário Dick: A Igreja ama a juventude; ela é como a mãe que ama e nem sempre sabe amar direito… Enxergo, aqui e acolá, uma Igreja que, em vez de cuidar, quer controlar; uma Igreja que esconde ou disfarça medos das posturas de jovens que tem o direito de serem eles mesmos, sentindo que não são feitos para serem ovelhas submissas mas cabritos/as monteses, enfrentando os riscos e lutando por seus direitos de ser feliz. Pedagogicamente, por vezes, a Igreja-instituição comete erros clamorosos.

A JMJ pode adquirir novos horizontes, ou seja, não ser vista apenas como um evento, mas como uma demonstração da autonomia da juventude?
Pe. Hilário Dick: Vivemos num tempo em que se acredita mais numa pastoral de eventos do que numa pastoral de processos. Para a JMJ do Rio de Janeiro parece que está havendo algum esforço de evitar que seja somente um evento, mas a coisa está complicada porque não é nem entendida nem aceita. As posturas já estão tomadas e vai ser muito difícil que instituições (dentro e fora da Igreja) invistam num evento onde reine, de fato, o protagonismo juvenil. No Rio de Janeiro (como nos outros lugares onde aconteceram JMJ) vai haver uma grande massa de manobra tanto dos meios de comunicação como de setores das Igrejas. A JMJ do Rio de Janeiro terá algumas diferenças, mas não muitas. O ideal é que fosse uma demonstração da autonomia juvenil, mas não será. A sociedade não permite porque ela não ama a si mesma e, por isso, não ama a sua juventude.

De que forma o senhor sentiu que deveria trabalhar com a juventude, escrevendo e falando sobre ela? O que esse contato com os jovens lhe proporcionou?
Pe. Hilário Dick: Sou doutor em Literatura Brasileira e larguei esse campo porque – para mim – Deus falou através da juventude: “Você é feito para ficar conosco”, disseram eles. Nunca havia pensado em trabalhar, especificamente, com jovens. Trabalhar na evangelização da juventude é uma vocação e uma graça. Uma descoberta enorme que fiz foi descobrir o divino no jovem. Perguntar pelo que essa opção de vida me proporcionou até pode parecer uma pergunta interesseira. Ela me proporcionou nada e tudo. A juventude é uma causa a qual me doei, sempre, gratuitamente. Escrevi sobre vários aspectos: assessoria, espiritualidade, pedagogia.. mas considero-me especialista em história da juventude, também da Pastoral da Juventude e da evangelização da juventude na América Latina.

Um de seus livros é Gritos silenciados, mas evidentes (história dos jovens na História). Você acredita que esses gritos ainda são silenciados, hoje?
Pe. Hilário Dick: Silenciados mais do que nunca… Os meios de comunicação sabem fazê-lo de forma que nem se percebe… Nunca a juventude foi tão “violentamente” manipulada. Basta olhar a TV, as propagandas, as modas, os costumes. O que vale é a aparência; o jovem é bom enquanto pode ser usado em sua juventude, em seu corpo lindo e jovem. A juventude serve quando se deixa usar como objeto.

Como o senhor vê as manifestações juvenis?
Pe. Hilário Dick: O que é uma manifestação juvenil? Todas as manifestações supõem, de alguma forma, organização. Uma “manifestação” é coletiva, não individual. Até supõe organização. Como exemplo tomo as manifestações dos estudantes no Chile lutando pela educação para todos, não privatizada. Foi no tempo em que acontecia a JMJ em Madrid. Porque não se fez menção a isso? A juventude do Oriente Médio derrubou várias ditaduras de dezenas de anos. A juventude da Espanha estava descontente com a questão do desemprego. Isso foi importante para a Igreja. Que causa defendem os jovens reunidos nas JMJ? A pedagogia das Jornadas permite que os jovens discutam seus problemas, não só religiosos? Estou com saudade de boas manifestações juvenis…

Alguma mensagem para a “gurizada”?
Pe. Hilário Dick: Sejam vocês, não sejam ovelhas mansas e submissas; tenham a coragem de serem cabritos/as monteses, com utopias, com projetos de vida, sonhando grande e não somente o presente. Não se escandalizem com uma Igreja não sabe acolher vocês e se contradiz no que diz e no que faz. A vocação comunitária, eclesial, faz parte de nossa felicidade.

Créditos:
Luiz Afonso dos Santos.