Grupos Maristas do RS

#Papocabeça | “Os drivers juvenis” :: Novas pistas para a missão marista na atualidade

Papo Cabeça,

 

Os drivers juvenis

Acreditarmos que os jovens são o centro do carisma de Champagnat nos lembra da necessidade de revisão constante das nossas práticas pedagógicas, evangelizadoras e administrativas. As Constituições Maristas são intuitivas e atuais, quando propõem que devemos “ir ao encontro dos jovens” em seus espaços, atentos a sua linguagem, compreendendo seus valores e partilhando dos seus sonhos e medos.

Temos muito mais chances de acertar em nossas abordagens, quando levamos em conta que a juventude é um tempo de buscas, descobertas e incertezas. Não se trata, por isso mesmo, de adotarmos uma postura que os sacralize, como se por vivermos “num país de jovens”, tudo que eles dizem seja a mais pura verdade. Muito menos devemos condená-los ao ostracismo, como se tudo que eles fazem parte da inexperiência ou da rebeldia. Como diz o Pe. Hilário Dick, um grande especialista das juventudes, “quem cuida, respeita a autonomia, o protagonismo, a personalidade de cada um”. Com isso, não temos receio em afirmar que “ir ao encontro dos jovens” é uma tarefa que exige uma leitura perspicaz da realidade, de abertura de coração e, principalmente, como nos lembra o Cardeal Ravasi, de uma escuta específica e interessada. Se efetivamente a juventude é a principal catalisadora das transformações sociais, estamos num tempo único da história que nos desafia e nos oferece uma avalanche de oportunidades. Nesse sentido, uma das mais importantes pesquisas realizadas no Brasil sobre juventude, lançada em 2011 e intitulada de O Sonho Brasileiro, pode nos ajudar nessa reflexão. Na tentativa de mapear as principais características do jovem brasileiro, a pesquisa se utiliza de uma noção, no mínimo, bastante interessante: os drivers. Mas o que isso quer dizer? Ela chama drivers os “fenômenos e movimentos globais (de ordem política, econômica, cultural, etc.), característicos de uma determinada época, externos aos indivíduos, mas que lhes influenciam na formação de novos pensamentos, comportamentos e valores”. Vemos, dessa forma, que os jovens interagem de forma dinâmica com o seu tempo, ora sendo a fatia geracional mais influenciada por tudo aquilo que o cerca, ora se transformando no grupo mais ativo na ressignificação de conceitos e na criação de diferentes e variadas formas de existência. Deteremo-nos, de maneira breve, nos três drivers que propõem O Sonho Brasileiro.

1) Uma nova maneira de pensar o mundo: o não dualismo. Os jovens não entendem mais a realidade como bipolarizada, ou seja, como repartida simplesmente entre dois opostos, no qual os problemas se resolvem somente a partir de processos de enfrentamento, guerra ou segregação. Eles lutam sim por suas ideias, mas o fazem tendo em vista opiniões mais flexíveis e abertas, que promovem sobretudo uma mentalidade de integração. Neste jeito de pensar se destaca a cultura do diálogo, a criação coletiva e a valorização do “e” muito mais do que do “ou”. Ainda que estas características os tornem resistentes às instituições sociais mais tradicionais, que até pouco tempo atrás eram praticamente as únicas fontes de sentido, eles não abrem mão de princípios e valores que orientem suas vidas.

2) Uma nova forma de se relacionar com o mundo: a hiperconexão. Como nativos de uma geração digital, os jovens de hoje não separam mais o real do virtual. Isto é algo mais típico “da nossa época”, que teve que aprender a “mexer” com a internet. Ele navega por um universo onde real e virtual se misturam, quebrando as barreiras físicas e fortalecendo o poder das redes. São jovens que estão conectados simultaneamente a diferentes recursos tecnológicos e, por isso mesmo, com uma imensa capacidade de alterar a compreensão já dada de espaço e tempo. Pensam e agem de maneira não-linear, ampliando geometricamente as possibilidades de relações entre os seres humanos e desses com as mais diversas “máquinas”. Fazem amigos e estabelecem relações afetivas com pessoas que estão a milhares de quilômetros de suas casas. Soma-se a isso a sensibilidade cada vez maior de construírem pontes sociais entre as diferenças e de gerar amplos movimentos coletivos.

3) Uma nova forma de agir no mundo: a microrevolução. Talvez estejamos errados quando afirmamos que os jovens não gostam de política. O que eles aprendem e nos ensinam continuamente é que a política necessita de uma modificação, tanto em suas causas como em seus atores. Junto com as tradicionais questões econômicas e partidárias, os jovens põem em pauta os aspectos sociais, culturais e ambientais, e mostram como a soma das pequenas ações, por vezes silenciosas, pode levar à macro-revoluções. Eles desejam espaços mais qualificados de participação e diversificam as formas de mobilização, utilizando, principalmente para isso, as redes sociais. Nesse sentido, pelo menos 8% dos jovens brasileiros podem ser considerados transformadores, ou como a pesquisa mesmo denomina: jovens-ponte.

O que devemos fazer então com os drivers dapesquisa O Sonho Brasileiro? Precisamente, por se referir a processos e a ideias em constante mutação, não tomá-los a última palavra sobre o universo juvenil. Precisamos, sim, reconhecê-los como placas sinalizadoras, que indicam quais caminhos precisamos tomar quando o assunto é a qualificação da nossa atuação. Não se trata de perdermos as nossas essências, tão pouco de relativizar os nossos princípios, mas de dar a estes, a cada momento, um novo sentido, tendo claro que a postura de diálogo e de contemporaneidade é condição necessária para um encontro verdadeiro com as juventudes. Este espírito de atualidade não deve nos soar como algo estranho. Basta recordarmos que o próprio Champagnat era um homem “antenado” com as crianças e jovens de sua época. Inova ao propor um projeto educativo que mescla fé, cultura e vida, e instiga seus Irmãos-educadores a que tenham proximidade e bondade na ação educativa. Cabe agora a nós, quase duzentos anos depois da fundação do Instituto, não perdermos de vista o espírito audacioso de Champagnat e “irmos ao encontro dos jovens”, certos de que eles são os sujeitos das transformações que esperamos para o mundo e, antes de tudo, de que se constituem como lugar teológico, ou seja, a expressão alegre e criativa do rosto de Deus.

*Texto escrito por Fabiano Incert – Representante Brasileiro na Comissão Internacional do Laicato Marista