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#PapoCabeça | Juventude e fé: lançando um olhar sob as juventudes

Papo Cabeça,

Confira o artigo escrito por Dione Gauto, Coordenadora de Pastoral do Colégio Marista Ivone Vettorelllo, onde ela reflete sobre juventude fé. 

A juventude busca incessantemente por modelos que revigorem sua maneira de ser, imbuídos na maioria das vezes pelo ter, poder e prazer se envolvem sem percepção alguma do que estão realizando em suas vidas”. Deparei-me com esta frase que é repetida sem generalizar inúmeras vezes por dia não necessariamente nesta ordem, mas reafirmando sem hesitar que o jovem está completamente sem rumo, segue o caminho sem saber onde quer chegar.

Em uma análise de conjuntura o que podemos afirmar ou negar sobre a juventude? Como poderemos falar sobre ela sob o mesmo olhar que depositávamos há décadas atrás? Que conhecimentos temos diante deste eterno campo que se modifica diariamente e que é tão favorecido e desfavorecido pela mídia?

Partindo do princípio de que uma análise de conjuntura é nada mais que uma análise concreta de uma situação concreta, ou seja, um instrumento estratégico que serve para articular a busca de possibilidades para ação; serão utilizados dados estatísticos recentes que possam elucidar e auxiliar na pesquisa e revisão parte a parte da frase acima citada.

Para juntar argumentos que possam auxiliar na afirmação ou não afirmação desta frase serão utilizadas duas fontes que subsidiarão a proposta de modelos de autoridade sob a assimetria de adesão, dentro do tempo histórico da contemporaneidade, tendo como locus a área educacional, familiar e a mídia, através de perguntas e respostas dos próprios atores deste movimento social, ou seja, os jovens.

A metodologia utilizada será mesclada entre quantitativa pela via de instrumento de pesquisa realizado através do Objeto de Tese Doutoral de Rosane Castilho[2] que se utilizou de algumas questões de múltipla escolha e uma de ordem subjetiva; bem como da investigação em Tese apresentada por Saraí Patrícia Schmidt[3] utilizando-se pesquisas relacionadas a mídia e seu envolvimento com os jovens. A metodologia também será qualitativa através do olhar dos interlocutores, ou seja, os autores a partir de suas teorias e jovens participantes da pesquisa.

Seguem indicativos da pesquisa:

[…] “Você está normalmente sujeito as normas ditadas por quem? Com que frequência? Os dados coletados a partir das respostas a esta questão nos informam que, para os jovens investigados, prevalece a opinião referente ao direito dos membros da família de estabelecerem, ou ditarem as regras aos mais jovens. Este dado pode ser verificado quando 55,4% destes informam que “sempre” é a frequência majoritária eleita para parentes. Vale ressaltar que os agentes sociais da escola (diretor, coordenador,professor) estão em segundo e terceiro lugar nesta escala, respectivamente contam com 37,6 e 32,5 % das respostas na frequência “sempre”, o que parece indicar um lugar de autoridade no ambiente educativo, embora 45% se sintam sujeitos às normas ditadas pelos professores em situações específicas, onde elegem a frequência “às vezes”. Para diretores e coordenadores o percentual relativo a esta frequência é de 38,2%.(CASTILHO, 2012, p. 3)

Embora esta questão pareça estar distante da indicação “modelo” é importante perceber o quanto o jovem ainda vê os membros da família como representantes de direito para estabelecerem ou ditarem as regras a eles. É claro que esta pesquisa foi realizada a nível acadêmico, mais isto é ainda mais louvável visto que as fases iniciais da primeira infância, pré adolescência e adolescência aparentemente já passaram e a personalidade está formada em alicerces bem definidos.

[…] “Quem você considera portador de autoridade? os jovens responderam majoritariamente (33,8%) à proposição “quem tem atitude e merece ser imitado”. Assim, pode-se observar que, apesar de 19,7% dos jovens identificarem a figura de autoridade como referente à condição de dominação, elegendo a proposição “quem manda”, prevaleceu a proposição relativa à condição de modelo, ou referência simbólica na identificação de um sujeito portador de autoridade. Este dado está muito próximo àqueles apresentados na pesquisa de referência (Castilho, 2010), onde 38,9% dos jovens investigados responderam à proposição “quem tem atitude e merece ser imitado”. 20,8% dos jovens neste estudo elegeram ”quem manda” como a atitude mais próxima ao sujeito portador de autoridade. (CASTILHO, 2012, p. 4)

Afinal, para o jovem o que é ter atitude? Por que para ele, este merece ser imitado? Ter atitude é uma expressão que se tornou o máximo em nosso tempo e para início de conversa só tem atitude quem é convidado a participar de um determinado grupo, ou pertence a determinada tribo. Ser jovem é ser surfista, roqueiro, patricinha, esportista, radical, rebelde, mauricinho, moderno, punck, gostar de hip hop e por aí vai, os estereótipos são muitos. Quem não os tem não tem atitude? Onde se compra esta tal atitude? É possível ser jovem sem ela? Quais os produtos que ela traz, quais seus benefícios e suas contra indicações? Existem outros produtos que ela traz e a mídia não propaga?

A mídia no entanto segue “a margem”, como tática de uma estratégia metamorfósica oferecendo seu produto multicor onde o jovem participante do fenômeno da teia midiática é descrito na maioria das vezes como fonte de inúmeros problemas sociais como drogadição, desemprego, violência, sexualidade desenfreada, mas paradoxalmente é apontado como fonte de solução para problemas conforme o dito popular “no jovem está o futuro de nosso país”. Já decretamos: nossos jovens não servem para o presente!

Mas será a mídia esta completa vilã que entorpece a virilidade dos pensamentos juvenis? Seria a juventude contemporânea tão desnutrida de pensamentos próprios que não capaz de julgar apenas acomoda-se a vãs pensamentos contraditórios? Enquanto educação estamos contribuindo para a formação de jovens críticos? Nos incomoda este excesso de informação que o jovem tem a facilidade de adquirir, através da cultura midiática?

[…] considerados como novos autores no aprendizado, os jovens estão questionando o modelo tradicional do professor que ensina e tem controle do conhecimento. Para eles, o saber é construído de maneira colaborativa, interativa e práticas. Eles passaram a ser coagentes da própria educação e não meros espectadores. Os professores passaram a ser participantes do processo, e o conhecimento das novas mídias pode até levá-los a ensinar, tornando mais interativa a relação professor-aluno no processo ensino-aprendizagem. [4]

Considerando que quem tem atitude merece ser imitado e as referências que o jovem busca como modelos de identidade no seu dia a dia é impossível deixar de perceber também a participação do professor como o sujeito que poderá despertar em seu aprendente-ensinante, e que portanto deverá estar estabelecendo relações que valorizem a continuidade das problematizações em espaços escolares e não escolares, favorecendo na juventude um espírito de não acomodação mas sim estranhamento em relação as propostas da educação e da mídia sem generalizar em espaços jornalísticos e publicitários.

Em contraponto escutamos o clamor do Papa Emérito Bento XVI ao acordar no sentido de despertar o povo para a necessidade de posicionar-se com firmeza, ousadia e criatividade, com olhar positivo diante das possibilidades que a rede de relações da era digital oferece:

[…] Convido os cristãos a unirem-se confiadamente e com criatividade consciente e responsável na rede de relações que a era digital tornou possível; e não simplesmente para satisfazer o desejo de estar presente, mas porque esta rede tornou-se parte integrante da vida humana. A Web contribui para o desenvolvimento de formas novas e mais complexas de consciência intelectual e espiritual, de certeza compartilhada. Somos chamados a anunciar, neste campo também, a nossa fé: que Cristo é Deus, o Salvador do homem e da história. Aquele em quem todas as coisas alcançam a perfeição. [5]

Sabemos que neste contexto os jovens são protagonistas por excelência, por este motivo existe uma necessidade prioritária tanto na área da educação quanto na área familiar que novas atitudes despontem favorecendo também neste meio um novo modo de relacionar-se como que um “acompanhar a juventude” diante destas mudanças que vem de encontro a novos comportamentos, tendências e estilos de vida.

Portanto é necessário desacomodar-se, sair de cima do muro, buscar conhecer o que até então encontrava-se desconhecido, integrar-se na vida do jovem não como quem quer investigar apenas, mas sim como quem quer participar, como quem de verdade quer tomar parte desta tecitura que o mundo midiático forma em meio aos jovens.

Acompanhar a juventude requer folego, requer conhecimento, requer caminhada, requer atitude, e “ quem tem atitude merece ser imitado.” Jesus é a prova maior disto quando reúne estrategicamente água e bacia e utiliza-se de uma metodologia familiar para lavar os pés dos discípulos.[6] Ele nunca foi superficial, sempre soube ir ao âmago de cada situação, demonstrava o que devia ser feito através de seu próprio testemunho. Não mandava fazer, fazia. Jesus foi tão profundo, tão repleto de atitude que chocou a seus apóstolos. Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, Tu me lavas os pés? Nunca me lavarás os pés?” [7] Afinal, na cabeça de Pedro Mestres e Senhores não lavavam os pés de ninguém, apenas os escravos lavavam os pés de seus senhores. E até hoje a piramide social nos incute ao pensamento de que os vassalos, os desnutridos, os indigentes, os desvalidos, os desprovidos, os excluídos são os que precisam servir aqueles que estão em classes mais privilegiadas.

A atitude de Jesus suscita imitadores. Podemos perceber isto também em meio a juventude que se organiza, que se otimiza, que busca ideais mais claros a cada dia. Uma juventude sadia que caminha com novos horizontes ou com horizontes mais claros e mais ousados. O que podemos dizer em relação aos acontecimentos em Santa Maria? Como os jovens se organizaram e ainda se organizam em relação a seus lutos? Quantos bons samaritanos surgiram? Quantas velas foram acesas e quantas mãos se uniram para oração?

A juventude pede passagem. Mas não é qualquer passagem. A mesma juventude que apontamos sem generalizar como causadora de tumultos mostra que sabe para onde caminhar. A tragédia de Santa Maria fala através de seus gestos. Pelas ruas cruzes foram feitas com pétalas de rosas, velas foram acesas demonstrando fé, celebrações em todos os cantos da cidade e fora dela, onde grandes multidões se aglomeravam para rezar por seus mortos, para clamar por justiça, mas para também rezar por aqueles que tentavam sobreviver e por suas famílias. As lágrimas, as palavras, as lamentações, os sussurros, os gritos, as músicas, tudo se misturava formando um salmo cultural de intenções, onde grandes salmistas se assemelhavam em dores aos lamentos de Raquel “ Eis o que diz o Senhor: ouve-se em Rama uma voz, lamentos e amargos soluços. É Raquel que chora os filhos, recusando ser consolada, porque já não existem.”[8]

Não existe consolação para o fato ocorrido, porém existem imagens e testemunhos que demonstram a ação do próprio Cristo que passava revestido e interiorizado em tantos corações juvenis. Juventude sarada que demonstrava os talentos de um corpo robusto ao depois de sair e encontrar-se a salvo retornava várias vezes para salvar outros, incansavelmente, pois estavam preparados fisicamente para isto. Muitos daqueles que isto fizeram doaram suas vidas em favor de outros. Será que existiu consciência cristã neste momento? Mudemos o sentido da pergunta: Será que existiu amor neste momento? Não tenhamos duvida disto, afinal “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos.” [9] Nossa juventude ama, nossa juventude tem atitudes de amor.

Encontramos em Santa Maria sinais autênticos do Evangelho, quem por lá esteve durante estes dias ou acompanhou as notícias através dos meios de comunicação pode perceber a presença pacífica e corajosa de Maria, sobretudo de Nossa Senhora da Piedade carregando inúmeros filhos, do Bom Samaritano que desdenhava-se em não acomodar-se na figura de um, mas na figura de muitos, e principalmente em Jesus de Nazaré que serviu a todos.

Ao concluir este artigo persigo a frase inicial não permitindo que meu pensamento extrapole o teu, porém convidando-te ao questionamento pessoal e oração em relação a esta juventude que encanta e desacomoda nosso agir. As portas do Ano da fé já se abriram, somos convidados a passar por ela a todo momentos, porém ao lançar nosso olhar sobre as juventudes deixemos de lado nossos estereótipos comuns e busquemos especializarmos primeiramente nas atitudes do Mestre deixando que “caristas Christi urget nos – o amor de Cristo nos impele” [10] e que este amor nos ajude a permitir que a evangelização perpasse primeiramente por nós, impulsionando-nos rumo a Jornada Mundial da Juventude. Jovens sarados sim, por que não?

Citações:

[2] CASTILHO, Rosane. Professora do Curso de Licenciatura em Matemática da Universidade Estadual de Goiás. [3] SCHMIDT, Patricia. Doutora em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. [4] CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Campanha da Fraternidade 2013: Texto-Base. Brasília, Edições CNBB. 2012. [5] PAPA BENTO XVI, Mensagem para o XXXXV Dia Mundial das Comunicações Sociais – Verdade, anúncio e autenticidade de vida, na era digital. Vaticano, 5 de junho de 2011. [6] Jo 13, 4-5 [7] Jo 13, 6-8 [8] Jer 31, 15 [9] Jo 15, 14 [10] 2 Cor 5, 14