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#Papocabeça | Mídia: enfoques perversos sobre a violência

Papo Cabeça,

Fonte: Jornal Mundo Jovem

As mídias dão grande ênfase à participação de adolescentes e jovens como propulsores dos índices de violência, e pouca ênfase ao fato de que eles são as maiores vítimas da violência que se pratica no país.

Diante desse paradoxo e da propagação da ideia de que medidas punitivas, e não educativas, reduzirão a violência confira a entrevista com Carlos Gadea, que pesquisa a temática da violência urbana e juventude.

Carlos GadeaDoutor em Sociologia Política, professor na Unisinos, São Leopoldo, RS.

Por que as mídias dão tanta ênfase à participação de adolescentes e jovens como atores da violência?

Parece paradoxal, mas digamos que as sociedades contemporâneas estão com um debate que remete à questão da insegurança, que está ligado à violência. Então a política de segurança pública preocupa os governos. Embora tenhamos índices grandes de homicídio, e que têm a ver com a população jovem, há um outro tipo de violência crescente: são as novas dinâmicas da violência urbana, que estão relacionadas ao consumo e ao tráfico de drogas. Agora, é superdimensionada a mentalidade de relacionar a violência ao jovem. Até porque nos últimos anos se tem uma onda de programas de TV, principalmente em algumas redes nacionais, em que se incentiva essa questão de estigmatizar. E isso tem uma enorme repercussão: a forma como a mídia aborda o tema da violência e da droga e assim associa a juventude à violência.

Existe uma associação direta entre ocorrência de homicídios e o tráfico de drogas?

O homicídio é talvez o que mais preocupa hoje a política de segurança pública. Antes se trabalhava com a falsa associação entre homicídio e droga e agora, quando se tenta isolar um elemento do outro, se propaga que os homicídios, em grande maioria, são ajustes de conta. Geralmente se começa a fazer o tratamento de diminuição dos homicídios a partir de uma política para diminuição das drogas. Mas não se trata apenas do consumo da droga. Trata-se de todo um sistema de tráfico, uma rede muito maior do que a questão da dependência e do consumo da droga. O homicídio é um elemento que tem que ser analisado isoladamente.

As principais vítimas do homicídio são jovens e também negros. Há tempos atrás a idade das vítimas estava entre 20, 24 anos. Agora, tem diminuído: começa dos 18 aos 21 anos. Outra coisa interessante é que os jovens vítimas de homicídio já têm em média três anos em que se envolveram em alguma ocorrência (furto, roubo, lesão corporal), alguma passagem pela polícia e já constam no cadastro. Curiosamente, o tráfico começa a aparecer depois. Geralmente, não iniciaram sua vida na ilegalidade dentro do tráfico; começaram com outros tipos de contravenção, ou seja, não entram na delinquência necessariamente pelo tráfico de drogas e sim por outros elementos típicos de situações econômicas excludentes e por convivência em ambientes não muito favoráveis.

Existe uma exposição da mídia do jovem como violento. Que efeitos isso traz para a sociedade?

É bem complexo. Se olharmos para os dados quantitativos, veremos que meninos que entram em ações socioeducativas são um percentual baixo com relação ao que potencialmente poderiam fazer no mundo dos delitos pela situação socioeconômica em que vivem. Poderia haver mais jovens no mundo do delito do que há. Não dá para se alarmar quando se examina a porcentagem, pois são apenas 8% de jovens (até 24 anos) os protagonistas de delitos. Outros dados interessantes: 90% dos jovens que cometem delitos são solteiros; 40% das vítimas de homicídio estão na informalidade e 60%, com empregos formais. Quem escuta na TV o termo menores já faz uma cadeia de significados, geral¬mente negativos, e que têm a ver com o mundo do delito. Menor é igual a delito. Às vezes, esse menor não cometeu delito, mas já foi enquadrado como suspeito por causa dessa lógica que está disseminada. E assim está se condenando a que entrem cada vez mais jovens num sistema prisional falido, enquanto que o Estado ainda poderia salvar de uma forma ou outra a estes jovens. Quanto à mídia, há diversos programas que, do ponto de vista dos direitos humanos, estão repletos de palavras com conotações racistas, estigmatizantes, que degradam o ser humano, que expõem a miséria humana e ainda lucram com isso. Porque é um grande mercado de criar notícias, são narrativas que constroem uma falsa realidade e fazem com que as pessoas façam associações negativas quando ocorrem determinados episódios.

Quando se fala desses programas que extrapolam a violência, dizem que há um público que aprecia isto.

É verdade. E isso já foi estudado pela Psicologia Social. As pessoas das camadas populares justamente prezam mais se distinguir dos que são iguais a eles, porque estão ferrados. Se, de alguma forma, alguém pode se destacar do grupo que está todo ferrado, melhor. Então quando uma pessoa assiste a esse tipo de programa e reage de maneira discriminatória, de certa forma é para buscar autoafirmação, se dizendo melhor do que aquele que está sendo apontado. Por isso a classe média não se interessa tanto por esse tipo de programa, porque ela não se compara com essa classe que está sendo estigmatizada. É esse espelho socioeconômico que nutre esse tipo de programa. Tudo está muito bem pensado para atingir determinado público.

Essa cultura da violência está alimentada também por outros produtos da mídia, como novelas, por exemplo?

A violência, hoje, já não pode ser mais interpretada como o desvio de algo. Tenho abordado a questão de como os movimentos sociais e as ações coletivas, hoje, apelam para a violência. Mas não a violência no seu sentido em si, mas a violência como linguagem, como algo que torna possível a unidade de um coletivo que não existia. E daí se juntam e há um momento de violência quando experimentam a coesão. Então a violência se torna algo estruturante de qualquer ação. Também a violência na vida cotidiana tem que ser analisada como a gente fazendo parte do mundo e não fora do mundo. A violência, de fato, nunca saiu do cotidiano. O que acontece é que agora está extrapolada. Quanto mais legislação, quanto mais repressão, quanto mais mecanismos de controle que temos neste mundo contemporâneo, mais aumenta a violência. Parece paradoxo. E cada um de nós também é elemento da violência, consumidor dela, porque estamos nesta realidade. Estamos num mundo competitivo, que nos exige que sejamos mais belicosos, não no sentido de praticar a violência, mas nos torna mais conflitivos. Estamos construindo uma cultura em que o contato direto, físico, está mais distante, ou seja, é o fenômeno da midiatização da sociedade. Há temor, desconfiança do outro. Por um lado, as informações são importantes, mas, por outro, o excesso delas gera predisposição à desconfiança do outro. As pessoas não se aproximam, e isso tem a ver com o modo como a violência circula ali.

Por que é tão difícil encontrar soluções para sanar o problema da violência?

Parece que os representantes da política estão paradoxalmente afastados da realidade das comunidades. Digo paradoxalmente, porque eles provêm das comunidades, mas parece que não têm uma boa leitura dos interesses e das necessidades das comunidades no momento de criar políticas públicas. Cada vez que se fala em políticas públicas para a juventude, se pensa sempre no mesmo paradigma: que a solução seria através do mercado de trabalho, como se fosse a salvação. Então se promovem cursos profissionalizantes (garçom, apertador de parafusos, porteiro), mas nunca se pensa em possibilitar algo mais qualitativo (línguas, informática etc.). Ou seja, se prepara jovens para serem subalternos. Outro paradigma é o do esporte: jogar futebol, gastar energias ou ficar sob uma árvore tocando guitarra. O esporte é para corpos que tenham possibilidade para o esporte, mas e os que não têm? Então, criam-se políticas com aspectos positivos, mas ao mesmo tempo é hora de pensar outras coisas: o mundo tem outros lados. As possibilidades são para alguns, mas não para os que estão mais vulneráveis. Estes continuam sob a tutela de ONGs ou até do Estado, que repassa dinheiro e mais dinheiro e acaba sustentando essa situação.

 

Horizontes na superação da violência

Uma forma mais adequada no objetivo da superação da violência e da estigmatização da juventude é mudar de paradigmas e trabalhar com a cultura digital. Isso se chama paradigma das intervenções urbanas. É o que acontece em Medellín, na Colômbia, por exemplo, onde existem parques-bibliotecas. Não se trata de colocar bibliotecas, mas estou citando analogamente este modelo para se tentar implantar aqui algo semelhante. Seria um espaço onde teríamos livros, computadores, cursos de informática, cursos de inglês, já para crianças a partir de oito anos. Haveria redes sociais, jogos para aprender a linguagem digital; onde aprenderiam a pintar, desenhar; onde se fariam jornais e outros meios de comunicação.

Esse espaço teria que ser um prédio bonito esteticamente, iluminado, com vidros, com cores bonitas, com pinturas de artistas nas paredes, para que isso entre na cultura dos jovens. Que seja também um ambiente onde as pessoas do bairro possam se reunir para deliberar sobre algum problema, e também trabalhar com projetos que os jovens possam desenvolver nas comunidades sobre as temáticas que eles consideram importantes. Por exemplo, a temática do lixo, a recuperação de uma praça, uma grife de roupa, a criação de um blog na internet com as notícias do bairro. Os melhores projetos seriam premiados com um valor em dinheiro para financiar novos projetos.

O que mais falta a estas pessoas é capital social, ou seja, a capacidade de estar em redes, com relações que lhes possibilitem sair de determinadas situações. O Estado precisa capacitar o jovem de forma que o mundo se abra para ele. Não tem que se dar as coisas, mas os meios para consegui-las. E hoje se tem a linguagem digital. Ou seja, estamos falando do que é básico, como a cultura digital, a língua inglesa e o incentivo à leitura.

Em Medellín diminuíram em 70% a violência nas favelas, em três anos, oferecendo local e possibilidades para as crianças estarem na internet pesquisando, fazendo trabalhos de aula, ocupando um espaço físico interessante, aberto, bonito, enquanto os pais estão no trabalho. A premissa é “o melhor para os que mais necessitam”. Além, é claro, dos elementos secundários que se abrem a partir da cultura digital, como os laços sociais, o diálogo e a solidariedade.