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#Papocabeça | Empreendedor: o jovem dono da sua história

Papo Cabeça,

 Fonte: Jornal Mundo Jovem 

O mundo do trabalho está em constante mudança, porém a estrutura das empresas ainda não atende plenamente a diversidade de projetos de vida dos jovens. Por isso, muitos optam por abrir seu próprio negócio, sendo empreendedores e fazendo as coisas do seu jeito. Mas o que é ser empreendedor? É buscar uma satisfação pessoal e ser bem-sucedido financeiramente? Ou é possível empreender a partir de soluções que valorizem os trabalhadores, em um espírito de coletividade? Sobre estas questões, o empreendedor social Lucas de Abreu Pinto,  de 27 anos responde a algumas questões importantes de serem revistas.

 


        Lucas de Abreu Pinto | Empreendedor social 
 

Como é o jovem empreendedor Lucas?

É uma característica minha buscar sempre conhecimentos que me agradam, coisas que possam servir para o meu futuro. Busco me aperfeiçoar em determinados assuntos, dominar algumas metodologias, na perspectiva de sua aplicação. Por exemplo, quando eu estava na faculdade, fiz parte da Júnior Pública, uma empresa que trabalhava em projetos sociais e de governo. Com 17 anos, montei um primeiro negócio, o Instituto Muda, que existe até hoje. É um projeto para ajudar os prédios residenciais a se tornarem mais sustentáveis. A gente ajudava orientando para economizar água, energia elétrica, na implantação da coleta seletiva de lixo, como utilizar as áreas verdes do prédio. E isso depois virou uma consultoria ambiental, o que nos rendeu quatro prêmios, dois nacionais e dois internacionais. Foi uma experiência muito rica, porque foi um processo muito mais de aprendizado, um aprender "na marra" os desafios colocados a um empreendedor do que propriamente a lucratividade.

Aí você se tornou de fato um jovem empreendedor?

Foi tudo muito bom porque eu consegui me relacionar, fortalecer uma imagem junto a algumas organizações e pessoas com as quais hoje trabalho, e aí comecei a me aproximar de algumas outras coisas, que são o meu segundo negócio: o grupo ASO. Trabalhamos em cima da sustentabilidade, tentando compreender um pouco desse mundo caótico onde vivemos, identificando essa dificuldade que temos de tentar diminuir a desigualdade, diminuir o impacto que as pessoas causam no ambiente; tentar entender conflitos e resolvê-los logo que surgem. Então eu fui estudando várias coisas dessas e interagindo com muitos desses problemas da sociedade, que considero muito profundos.

Estudou por conta?

Estive em Bangladesh, fiz um estágio no Grameen Bank para entender a metodologia do Muhammad Yunus. Daí trabalhei um tempo na Shopping Empreendedores Sociais, uma organização que trabalha com empreendedores sociais. Ali tive contato com muitos empreendedores que considero as pessoas mais fantásticas, que moldaram a minha perspectiva de futuro.

Ser empreendedor é também ter postura, iniciativa, atitude?

Acho que ser empreendedor começa por um incômodo muito grande: o incômodo de que alguma coisa está errada e você acredita que possa haver uma solução para modificar aquilo. E na verdade esse processo é uma busca contínua por informação a respeito do que outras pessoas já estão fazendo, o que se pode pensar diferente, como é que eu posso me colocar nisso... Esse incômodo traz questionamentos: será que isso vai dar certo? E daí vem a perspectiva do sonho. Na medida em que a pessoa coleta informações, ela vai se nutrindo positivamente e, para mim, isso provoca mais ânsia e vontade de continuar, me traz uma grande motivação. É nesse processo que o sonho vai migrando gradativamente para um planejamento: o que inicialmente era uma ideia, hoje é mais concreto. Existe um equívoco muito grande em você ficar sonhando e acreditar que a realidade criada na sua cabeça é o que deveria ser feito. Nesse caso você se nutre de alguma coisa que, muitas vezes, não existe, porque só está na sua cabeça. Quando você interage com o mundo externo, você consegue validar algumas questões. Então é importante você ter a sensibilidade de observar as dicas que o mundo está dando.

Existe uma ideia de que o empreendedor é alguém que quer ganhar dinheiro, numa perspectiva individualista?

Infelizmente, existe muito essa perspectiva de empreender para ganhar dinheiro, viver para ganhar dinheiro. E esta é uma das dificuldades do empreendedor que quer mudar a realidade das questões mais estruturais. Porque desde o início encontramos uma sociedade competitiva. Os nossos pais nos ensinam a competir, a tentar ser o melhor. E ser melhor implica ganhar enquanto o outro perde. Se você ganha dinheiro significa que o outro tem que perder dinheiro; se você é feio é porque alguém é bonito, e assim por diante. E hoje todas as instituições e grupos incentivam a ganhar dinheiro e acumular. O dinheiro é superimportante para você se manter no mercado, realizar outros sonhos, só que o dinheiro deve ser a consequência de um bom trabalho.

E é possível um projeto mais coletivo?

Hoje se fala muito de startup. Se divulga a ideia de que as empresas têm que crescer de forma muito rápida. Vem o investidor, injeta dinheiro, e cria-se a ilusão de que o dinheiro é a alternativa para a prosperidade. Mas hoje, com toda essa estrutura de rede disponível, trabalhar por intermédio da colaboração é uma alternativa, é o caminho oposto da forma tradicional. O tradicional é assim: você apresenta uma ideia para o investidor, ele coloca muito dinheiro na sua mão, você verticaliza a sua organização, cria uma réplica deste modelo que está aí, de estruturas extremamente hierárquicas. E quem está acima dita as regras e, na medida em que a organização vai andando, mais dinheiro vai sendo acumulado. Precisamos mudar esse jogo.

Como é a empresa ASO?

É uma organização que trabalha na direção da inovação consciente. São dois estagiários, eu que cuido da parte comercial e da realização de alguns projetos, uma pessoa da parte financeira, três pessoas da parte digital e o restante das pessoas, todas em rede, interagindo. Vamos estimulando determinadas organizações a participarem de projetos, que são desenvolvidos de forma colaborativa. Estamos colocando no ar um site onde qualquer pessoa física do Brasil e/ou do mundo pode entrar, se cadastrar, enviar um problema, e a ideia é criar, on-line, uma estrutura para resolver questões em rede e compartilhar recursos, aplicando os nossos princípios.

Vocês defendem alguns princípios e valores no trabalho?

Temos que levar em conta a atual complexidade social e ambiental. Quando for pensar uma solução, tem que diminuir o impacto ou aumentar a compensação ambiental do negócio, solucionar os conflitos nas relações, trabalhar o desenvolvimento humano. É isso que fazemos. O econômico, todo mundo já faz: é muito foco no econômico, por isso focamos esses outros pilares. Em qualquer solução que buscamos para uma organização, em qualquer parceiro que vai trabalhar conosco, em qualquer organização que se conecte com a gente de alguma forma, não abrimos mão dos seguintes princípios: a liberdade cultural e espiritual, igualdade jurídica e fraternidade econômica.

O que significa isso na prática?

Quando vamos fazer um trabalho, para ser fraterno economicamente, a gente deixa muito claro quais são os custos envolvidos no projeto, o que se está buscando em termos de receita, quantas horas vamos trabalhar. E costumamos pensar todas as cláusulas do contrato com todas as partes que vão participar para que ninguém fique prejudicado. Liberdade cultural e espiritual é, na medida em que vamos desenvolvendo o trabalho, propiciarmos o desenvolvimento do indivíduo. Porque é somente criando oportunidades que o indivíduo se transforma, porque só ele é dono do mundo dele. No momento em que ele trabalhar a individualidade para melhor, se pode criar a consciência coletiva. Outra coisa, que todo mundo esquece, e é o motivo pelo qual muitos empreendimentos quebram, é a celebração. As pessoas não celebram, não ficam felizes pelas pequenas conquistas. E é por essas conquistas que se adquirem novas habilidades. Somamos resultados individuais, conhecemos novas pessoas, adquirimos novos conhecimentos, novas realidades, novos projetos etc. O processo, o caminhar, é mais rico do que o resultado.