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#Papocabeça | Sonho e ação viram mobilização

Papo Cabeça,

Fonte: Mundo Jovem 

A aparente apatia dos jovens pode ser apenas um mito. Se a escola e a sociedade, com suas instituições, souberem despertar e mobilizar a ânsia de vida presente em cada jovem e em cada ser humano, podemos enxergar no horizonte um futuro de participação e de maior cidadania. Sobre este tema, o Mundo Jovem entrevistou Denise Mazeto, gestora de sustentabilidade integrada do projeto Células da Transformação, que promove uma série de atividades de mobilização e conscientização na cidade de São Paulo. Visando ao desenvolvimento local participativo, esse projeto foi premiado pela ONU, em 2007, como proposta inovadora para o desenvolvimento sustentável.

Num contexto de individualismo, imobilismo, como promover a mobilização popular?

Essencialmente as pessoas buscam estar ativas. Joseph Campbell disse que o que há de comum nos seres humanos é que eles buscam pela experiência de estar vivos. E vida tem a ver com estar ativo, estar mobilizado e enfrentar os desafios que as atividades de grupo proporcionam. Se estamos vivendo de forma estática, tem algo interferindo em nosso processo natural que é o da abundância, da transformação e da prosperidade.

Qual o sentido e a importância da mobilização popular?

Penso que é justamente essa necessidade de se sentir vivos que está intimamente ligada com o ativismo. Quando a pessoa não se mobiliza por algo que seja positivo para si mesma e para a sociedade, outra coisa qualquer tende a ocupar o vazio que fica dentro de cada um. As pessoas encontram várias maneiras para satisfazer a vontade de se sentirem vivas. É como a água corrente, ela sempre vai achar um caminho a seguir. Esse caminho pode ser positivo para si mesmo e para a sociedade, ou não. Um exemplo são as compras compulsivas. Quanto daquilo que compramos é realmente necessário? É um bem-estar duradouro ou efêmero? E o uso de drogas ou alucinógenos? É um caminho rápido e fácil para um estado de prazer interno. Mas quanto tempo duram? Qual é o investimento inicial e a longo prazo? Honestamente, não gosto de falar de problemas sem citar soluções, por isso me identifico muito com a metodologia do projeto Células da Transformação, onde trabalhamos, por exemplo, com a pedagogia dos sonhos possíveis, de Paulo Freire.

Que bandeiras mais empolgam e mobilizam as pessoas, especialmente os jovens?

O que tenho visto de mais significativo está relacionado à cultura e à ética. Nessas duas bases se encontram os movimentos pela ocupação da terra, proteção aos animais, vegetarianismo, produção orgânica de alimentos, direitos humanos, arte, ecologia, política etc. Sobre os jovens, gostaria de lembrar que as pessoas envelhecem física e mentalmente. Fisicamente podemos cuidar e permanecer saudáveis por muitos anos, e mentalmente temos muitos exemplos de mentes brilhantes que permanecem vivas em idade avançada. E isso também tem a ver com estar vivo, pois as conexões neurais estão sempre sendo estimuladas quando utilizadas.

O ativismo virtual substitui o ativismo presencial? Como conciliar?

Penso que o ativismo virtual oferece grande oportunidade de criar e fortalecer redes. Conectar pessoas que têm propostas comuns é algo que fortalece qualquer movimento. Virtualmente a troca de informações é ágil e dinâmica. Tem o potencial de quebrar barreiras geográficas e sociais, unindo pessoas de diferentes nacionalidades, raças e religiões. E para que não fique apenas no conteúdo intelectual, os grupos de ação local são fundamentais. Neste ponto, os movimentos de economia solidária e sementes crioulas muito me impressionam, pois sabemos que de fato a conexão virtual e local são extremamente eficientes.

As experiências de mobilização através das redes sociais, quando não alcançam seus objetivos, podem causar frustração e imobilismo?

Uma forma eficiente de tratar a frustração é a entrega de seu trabalho ao universo. Parece abstração, mas não é. A filosofia de PROUT (teoria socioeconômica desenvolvida em 1959 pelo filósofo indiano Prabhat Rainjan Sarkar) diz que o Universo conspira a nosso favor. Dê o melhor de si mesmo em determinada tarefa, que a Inteligência Infinita se encarregará de proporcionar os melhores resultados para o mundo. Essa entrega sem esperar nada em troca e dando tempo ao tempo é realmente desafiadora, em particular para mim que sempre tive a velocidade como característica. No entanto tem sido gratificante ver os resultados. Temos como hábito acreditar naquilo que vemos e podemos tocar. No entanto é tempo de não subestimar aquilo que não está ao alcance de nossos olhos. Exemplos? Energia elétrica, vemos apenas seus efeitos e não a energia em si. Ar, sabemos que não vivemos sem ele e vemos sua ação quando em movimento.

Em que medida as redes sociais contribuem com a cidadania ao tornar a política e a votação de projetos mais transparentes?

Em geral, as pessoas votam e entregam as suas vidas e de suas comunidades aos eleitos, na esperança de que eles sejam os escolhidos como foi o Neo do Matrix. Gente, mudar o mundo tem a ver com trabalho, ralação mesmo. Precisamos entender como funcionam os mecanismos da política e da economia para decidir o que nos serve e o que precisa ser mudado. No começo pode parecer difícil entender, e é mesmo, pois a linguagem foi feita para não nos incluírem na conversa. No entanto tem muitas redes e movimentos cumprindo esse papel de decodificação para que a participação de todos seja viável. A transparência tem a ver com isso, entendimento e participação efetiva da população.

As experiências de participação e mobilização popular podem ser, para os jovens, uma espécie de laboratório de cidadania?

Certamente! Dizem que o maior aprendizado é o vivencial. Dessa forma que todos tenham a oportunidade de experenciar a transformação que tanto queremos. Existem movimentos organizados em vários eixos. A pessoa só precisa escolher o que mais lhe toca e entrar em contato se oferecendo como voluntário, ativista. Todos estão à procura e sendo procurados, é só se conectar.

As metodologias de mobilizar pessoas de décadas passadas estão defasadas?

Apesar da minha idade, eu consegui ser efetivamente mobilizada apenas nos últimos anos. No auge do movimento estudantil contra a ditatura eu era uma criança. Na juventude eu trabalhava e estudava, e as informações não tinham a fluidez que têm hoje. Dessa forma eu fui ativista em causa própria, cuidando do corpo e da mente por meio do vegetarianismo e do yoga. Então consigo apenas dizer do que vivencio hoje. Os processos participativos estão aí com uma força extraordinária. Metodologias como o Teatro Social (Teatro do Oprimido) chegam para impulsionar sonhos de pessoas e comunidades e contribuir de forma criativa e inovadora com a realização de seus projetos.

Como os estudantes podem ser mobilizados e que temas merecem mais atenção?

Tenho uma amiga que diz assim: não deixe a universidade atrapalhar seus estudos. Brincadeiras à parte, os jovens têm uma sede de viver e de aprender que é impressionante. Quanto mais quiserem colocá-los em caixas, mais eles se rebelam em busca de satisfazer o que pede a sua natureza mais profunda, que é alimentar suas próprias vidas. Assim, a mobilização nasce desse alimentar. Os temas são todos que envolvem a vida: as pessoas, as comunidades, os animais, a água, as sementes, as plantas etc. Tudo está interligado e não podemos deixar nada de lado, achando que não tem importância. Somos muitos, podemos dar conta do que precisa ser feito.

O que você pode comentar sobre a experiência do Células da Transformação?

O Células é uma instância viva, dinâmica, que tem vida e gera vida. É para todos os que se sentem ou queiram se sentir vivos. Desse modo, é aberto a todos acima de 15 anos. A limitação de idade mínima tem a ver apenas com a autonomia de cada participante. Com a compreensão da educação como a formação de pessoas que se engajem como protagonistas, o projeto Células de Transformação atua na cidade de São Paulo. Na Escola Estadual Professora Amenaíde Braga de Queiroz foi formado um grupo de jovens de Ensino Médio, por meio de dinâmicas de Teatro Social, Biopsicologia e Dragon Dreaming (método para implementar projetos criativos, cooperativos e sustentáveis). O ponto central foi o despertar da empatia entre as pessoas ? ao começarem a perceber que não estavam sozinhas, desconstruindo muitos preconceitos uns sobre os outros e compartilhando seus sentimentos, surgiram as possibilidades para começarem a criar juntos uma nova escola: um espaço de ampliação de espaços de diálogo, ação, reflexão e expressão corporal para realização de projetos e sonhos pelos educandos e educadores. Desabrochar nossos potenciais, multiplicar perguntas, olhar para as coisas como elas são e abrir espaços para sonharmos. Ver tudo aquilo que é e tudo aquilo que pode ser. Ampliar nossa conexão com os outros e com a vida. Educação é nos darmos conta, de repente, de que tudo ? o que existe ? é processo criativo e podemos fazer parte disso.