Grupos Maristas do RS

“A juventude como categoria social está morrendo de êxito”

Papo Cabeça,

Fonte: IHU 

“Tudo o que ele queria eram as mesmas respostas que o restante de nós: De onde venho? Para onde vou? Quanto tempo me resta?”. A voz em off de Harrison Ford, em Blade Runner, procura explicar o motivo pelo qual o caçador de replicantes foi perdoado pelo último replicante. Esta reflexão do filme serve de ponto de partida para entrar no trabalho de Carles Feixa (foto), doutor em antropologia social, pela Universidade de Barcelona, e autor de vários livros sobre a juventude, o último deles De la geración@ a la #geración. La juventude en la era digital. Para Feixa, “a grande contradição de nossa sociedade é que os jovens querem ser adultos e lhes permitem, e os adultos querem ser jovens e não podem”. Isso nos assemelha com os replicantes e os caçadores de replicantes, de Blade Runner, pois os jovens são perseguidos pelos adultos, que os amam e os temem. Conversamos com Feixa sobre esta relação esquizofrênica.


                                                    Carles Feixa 

Um século após nascer este conceito, o que significa ser jovem?

Uma das citações que inicia o livro é de um manifesto surgido a partir do 15M, que se centra na crítica ao conceito de juventude. Os jovens atuais resistem ou se opõem à noção de juventude como o mito da impossibilidade de se mover para o mundo adulto, como a permanência em um estado de moratória social, como foi definido, há um século, nos inícios da psicologia atual. Stanley Hall foi um psicólogo norte-americano que publicou, há um século, um livro sobre a adolescência, no qual definia a juventude como uma nova etapa de vida. Ele a via como algo positivo em seus efeitos, ainda que não em suas manifestações. Hall definia a juventude como uma crise de identidade. Outro Hall, Stuart Hall, que é uma referência em estudos subculturais nos anos 1970 e 1980, junto a outros companheiros da escola de Birmingham, redefiniu a noção de juventude como categoria cultural. Para Stanley Hall era uma categoria biológica, para Stuart Hall, Tony Jefferson, etc., era uma construção cultural do capitalismo avançado, que respondia, por um lado, algumas necessidades do mercado de consumo e das indústrias culturais e, por outro, uma autodefinição dos próprios jovens. Por isso, pesquisaram as chamadas subculturas e contraculturas dos anos 1960 e 1970: hippies, rockers, mods, etc.

Meu livro é uma tentativa de apresentar uma terceira fase de reflexão sobre a noção de juventude na era da rede. De certa maneira, após o nascimento da juventude em inícios do século XX e de seu apogeu nos anos 1960-70, anuncia-se uma morte desta categoria social. Trata-se de uma morte de êxito. A juventude como categoria, que começou sendo uma etapa transitória relativamente curta, centrada na educação e cujo apogeu consistiu em ser a rainha do mercado, eterniza-se na era digital, a era da informação e a era da precariedade do trabalho. Eterniza-se até o ponto de se tornar a etapa mais duradoura da vida e, portanto, perde seu sentido porque deixa de ser uma etapa transitória e se torna permanente. Isto possui aspectos positivos no que diz respeito à flexibilidade cultural e capacidade inovadora dos jovens, mas também conta com aspectos dramáticos como a sua exclusão do mercado de trabalho e da tomada de decisões políticas de grandes âmbitos da sociedade.

Hoje em dia, como delimitamos esta etapa de vida?

Stanley Hall delimitava esta fase dos 14 aos 21 ou aos 26 anos. As pesquisas do Injuve, que são realizadas hoje, até os 34 e, inclusive, às vezes, até os 39 anos. Obviamente, aumentou muito a expectativa de vida, mas, além disso, o ciclo vital industrial está em profunda crise. Em parte pelas transformações do sistema produtivo, porque o sistema profissional já não é para a vida toda, mas, sim, trata-se de um constante fluxo. Este percurso linear se torna um percurso em caracol. Hoje, a formação já dura a vida toda. Não há nenhuma profissão, menos as intelectuais, na qual aquilo que você aprendeu quando era jovem sirva para a vida toda. Ao mesmo tempo, o ócio, ou o descanso, que era o objetivo dos idosos, já é uma característica central da sociedade. Todos os grupos sociais precisam de um tempo para se divertir, para consumir, para desfrutar o tempo livre. Por outro lado, o trabalho, que primeiramente havia se tornado um castigo do capitalismo, agora é um privilégio de poucos. Caso não se repense profundamente, há uma crise social que não é possível sustentar.

No momento, os jovens são as vítimas desta primeira reestruturação. A noção de “precariado”, de certa maneira, recupera a noção de lumpemproletariado marxista do século XIX. Esta se baseava em uma divisão de classes que marcava as diferenças sociais. No século XXI, a classe não desapareceu, mas a divisão central de acesso aos recursos, aos salários e aos direitos sociais é a idade. A reforma que está sendo produzida é em detrimento aos jovens e em benefício de algumas elites que estão saindo da crise sem se adaptar a este desafio. Acredito que no futuro isto não será sustentável. Não faz sentido que nós adultos trabalhemos cada vez mais horas e nos aposentemos mais tarde, enquanto há uma camada de jovens pré-desempregados, com maior formação, mais e melhor informação e, no entanto, com algumas dificuldades enormes de acesso ao mercado de trabalho e, sobretudo, com uma precariedade e uma desigualdade salarial que em outras circunstâncias seriam o motor de uma revolução. Essa revolução não acontece – ainda que ocorram micro-revoluções – porque a grande diferença é que as classes duravam para sempre. [Hoje] Ao contrário, supõe-se que os jovens algum dia deixarão de ser jovens. O que é enganoso porque esta categoria temporal é cada vez mais permanente. Para os jovens atuais, cada vez é mais difícil abandonar o estigma que supõe a instabilidade emocional, de vida e de trabalho.

Por que você fala da transexualização da nova geração?

A crise da identidade juvenil, segundo Stanley Hall, era uma dupla crise, a crise da masculinidade e a crise da feminidade. Nos anos 1960 e 1970, há uma primeira feminização da cultura juvenil. Isto se produz, não só por uma razão objetiva como é a pílula, que permite separar a reprodução da sexualidade, mas também porque existe um caminho paralelo entre o feminismo e os movimentos da contracultura. A mudança nas formas de vida reúne os dois coletivos. Por outro lado, os estilos de vida que as culturas juvenis introduzem, mesmo que inicialmente fossem masculinizados (rockers, sobretudo), passam a ser mais equitativos e inclusive andróginos, como, por exemplo, o movimento punk, onde o feminino e o masculino não desaparecem, mas metamorfoseiam-se. Na era digital, em teoria, é possível uma superação das divisões de gênero que haviam marcado este trânsito à vida adulta, em parte porque o mercado de trabalho já não depende da força física, pelas mudanças na biomedicina, que permitem algumas viagens de transexualização não apenas simbólica, como também real, e finalmente porque há uma confusão dos gêneros. Havia alguns rótulos, alguns ritos de passagem, algumas saídas do armário, que tornavam claro para cada um qual era o seu percurso. Na atualidade, os jovens estão na incerteza. É a era da não definição, portanto, é necessário inventar. De fato, no mundo digital, as minorias sexuais são as mais ativas. Isso não significa que os sexos irão desaparecer, nem tampouco que a masculinidade irá desaparecer. De fato, pode haver um refluxo: em alguns setores, há uma recuperação de certas retóricas da divisão sexual que pensávamos estar superadas, mas que não estão tanto assim.

Outro aspecto que define a juventude é o nomadismo: uma ruptura sem precedentes da noção de espaço e de pertencimento.

Falo de ‘nomadismo’, um termo de Michel Maffesoli, mas também de ‘translocalismo’, que é utilizado pela autora mexicana Rossana Reguillo. Não é apenas a mobilidade geográfica e física dos jovens – por exemplo, a ‘geração erasmus’ -, mas, sobretudo, é uma metáfora da instabilidade do trabalho, do fluxo de papéis profissionais e educativos e a instabilidade emocional em que estão submergidos. Se aplicarmos isto aos movimentos sociais, supõe um retorno ao mais próximo. Pensávamos que a era digital suporia a máxima distância, quando, na realidade, o uso que os jovens fazem das redes tecnológicas é muito personalizado, tornando esse processo parte de seu corpo. Por isso, quando acampam na Praça da Catalunha, Sol ou Tahrir há uma máxima proximidade, até o ponto de Madri se tornar uma pequena “micrópole”. Não uma metrópole, mas uma pequena cidade na qual todo mundo se conhece, como nas pólis gregas. Contudo, com a consciência de que essa micrópole faz parte da aldeia global. Há uma conexão que para outras gerações é mais complexa entre o local e o global, e é uma conexão que se produz diariamente. O local e o global se justapõem e formam essa noção de ‘glocalismo’. Com tudo o que há de bom e ruim nisto, porque em determinadas ocasiões a viagem ao global é uma fuga dos problemas locais, ao mesmo tempo, como é impossível uma revolução ‘glocal’ – toda mudança dever estar ancorada em algum lugar –, os efeitos não são imediatos. Em nenhum dos países os protestos tiveram efeitos imediatos e em alguns países houve um retrocesso. No entanto, sim, existe uma onda que vai acompanhando uma mudança de ciclo na percepção cultural que os jovens têm de sua participação no mundo.

Você diz que uma geração termina quando os acontecimentos históricos esvaziam de sentido o sistema prévio. A conclusão do livro é que estamos nesse momento.

Estamos em uma encruzilhada, e quando você fica desorientado em um cruzamento de caminhos, fica perdido. Não está claro para onde vamos. Em um sentido geográfico, acredito que, não apenas a Espanha, como também todo o Sul da Europa, está mergulhado nas transformações que estão ocorrendo no norte e no sul, transformações que a crise não causou, mas tornou mais visíveis e lacerantes, como as mudanças na noção de trabalho, esta desigualdade geracional em salários e outras muitas questões. Uso a imagem do replicante não tanto relacionada à tecnologia, mas para explicar esta nova maneira de crescer. O replicante é metade humano e metade máquina, da mesma forma como os jovens não são crianças, como tampouco são adultos e isto, que no passado era um trânsito rápido, era um sarampo, hoje parece ser um vírus que se tornou crônico. A única maneira que os jovens possuem para superar esta situação é a que as subculturas sempre tiveram: fazer do estigma uma bandeira. Tornar algo que é negativo e paralisante em algo que pode ser um jogo, que pode ser algo com o qual aprender. Enquanto não nos deixarem ser adultos, façamos coisas: joguemos, viajemos, protestemos e dediquemos nosso tempo a este mundo digital que, inicialmente, parece um jogo, mas, talvez, acabe sendo produtivo no futuro. De fato, nos princípios da saída da crise estamos vendo muitas iniciativas, sobretudo juvenis, não tanto de novo empresariado, mas, sim, de reestruturação do espaço, do tempo e da condição social que são muito inovadoras.

De quais ferramentas necessitamos para esta nova transformação?

Acredito, claramente, que deve haver um contrato social. Primeiramente, por uma questão de sobrevivência da seguridade social. [Este contrato] não pode ser produzido como uma imposição dos poderosos – dos adultos sobre aqueles que não são: aposentados e jovens –, mas é preciso haver um tipo de acordo no qual todos saiam beneficiados. Em segundo lugar, é preciso haver uma mudança cultural na percepção de que o ciclo vital das pessoas já não é linear, mas é em caracol e em espiral. Até agora, isto foi visto apenas como algo negativo: precariedade, instabilidade, tempo parcial... entretanto, também pode ser visto como um percurso que torna os espaços e os tempos da vida cotidiana mais flexíveis. Por exemplo, é necessário existir uma transformação dos horários. Deve-se caminhar para um tipo de atividade por tarefa, por produção, que nos permita trabalhar menos horas. Os jovens são aqueles que estão inovando nesse sentido. A hierarquia de trabalho também deve ser reconstruída baseada em relações mais horizontais ou a partir de relações em rede. A rede não é amorfa, mas tampouco é uma pirâmide. A sociedade digital não pode funcionar como uma sociedade hierárquica. Caso funcione assim, está condenada ao fracasso.

A evolução da juventude

Nascimento

Em 1904, Stanley Hall publica o primeiro tratado sobre a juventude contemporânea. Inspirado em Darwin, Hall considera a juventude como uma nova etapa de vida que não existia em sociedades primitivas ou em outras culturas. É considerada uma fase de formação.

Militarizadas

O fascismo de um novo status à juventude, com base nas experiências surgidas nos anos 1920 e por meio dos boy scouts de Baden Powell. As juventudes hitlerianas, a Falange e os Balilla italianos utilizam a juventude como força de choque. Na prisão, o comunista italiano Antonio Gramsci dedica parte de seus cadernos à questão dos jovens.

Rock and roll

Os anos 1940, que na Espanha deram lugar ao que José Luis Aranguren chamou de “a geração abatida”, abrem caminho, nos anos 1950, à geração rock and roll, a primeira geração globalizada da história.

Maio de 1968

A contracultura se torna um paradigma que tem influência em todo o mundo. O mercado aprende e apreende o núcleo das reivindicações juvenis, que assumem aspectos revolucionários em alguns países.

Não há futuro

Do “não há futuro” ao “fim da história” se passam duas décadas nas quais a juventude se torna a rainha do mercado. No ano de 1976, publica-se o livro Rituais de resistência, de Stuart Hall e Tony Jefferson, o estudo mais importante sobre subculturas juvenis.

Antiglobalização

O levante zapatista utiliza a potência da internet para se conectar com uma nova geração de ativistas. Posteriormente, o movimento antiglobalização articula novas formas de protesto.