Grupos Maristas do RS

Ubuntu | Uma perspectiva para superar o racismo

Sobre Juventudes,

Fonte: IHU 

Muitas reflexões acerca do racismo trazem como questão de fundo uma perspectiva xenofóbica, em última análise, a não aceitação do outro. É, por exemplo, a atualização dessa perspectiva na relação com imigrantes, numa outra faceta racista. Isso porque são vistos como intrusos, quando na verdade quem os “recebe” é incapaz de assumir o drama do povo como também um drama seu. O professor africano Jean-Bosco Kakozi Kashindi olha para essas questões raciais desde os princípios do Ubuntu, que pode ser apreendido como uma metafísica africana. Para ele, entre as inúmeras definições, Ubuntu pode ser compreendido como a humanidade do ser. Ou, como prefere, “a abstração das pessoas no conjunto de suas humanidades”. “É a ideia de que minha humanidade está ligada à sua. Logo, ‘eu sou porque somos’”, explica, ao mergulhar no princípio do reconhecimento do outro, tão forte na lógica do Ubuntu.

Porém, o que Ubuntu pode responder a reflexões em torno do racismo? A questão norteou as discussões da conferência proferida por Kakozi, ocorrida no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, na quarta-feira, Em “A dimensão ético-política de Ubuntu: Uma proposta para a superação do racismo em 'nuestra América'”, o professor destaca o postulado ético-político da metafísica africana. “Se no Ubuntu a pessoa é pessoa através dos outros, a perspectiva de humanidade vem sempre primeiro”, pontua. Ao conferir esse valor à relação entre os humanos para constituir suas humanidades, Ubuntu não despreza qualquer ser humano. É como se todas as pessoas, e suas humanidades, tivessem valor e fossem fundamentais para formação dessa humanidade, ou se preferir, para constituição da nação, do povo.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, o professor aprofunda as ideias que nortearam sua conferência.

Jean-Bosco Kakozi é natural da República do Congo, onde se graduou em Filosofia e Ciências Humanas. Especializou-se em Religião no Centre de Formation Missionnaire Notre Dame d’Afrique, na cidade de Bukavu (República Democrática do Congo). Realizou mestrado e doutorado em Estudos Latino-americanos, com ênfase na Filosofia, História das Ideias e Ideologia, pela Universidade Nacional Autônoma do México – UNAM. Sua pesquisa é referente ao Ubuntu na África do Sul (Joanesburgo) na Universidade de Witwatersrand. Atualmente é pós-doutorando no Programa de Pós-graduação em Direito na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, São Leopoldo.

IHU On-Line - Como compreender a essência do Ubuntu? Em que medida se coloca como perspectiva para superação do racismo?

Jean-Bosco Kakozi - Partindo de uma definição geral, Ubuntu significa humanidade; mas desde um aprofundamento conceitual de Ubuntu, este termo tem três significados que se entrelaçam: 1) a abstração e a generalidade dos fenômenos que, na cosmovisão africano-“bantú”, constituem a realidade (o muntu [a pessoa], o kintu [a coisa], o kuntu [o modo o a maneira de expressar o mundo] e o ahantu [o espaço-tempo]); 2) a abstração e a generalidade do umuntu (a pessoa), ou seja, a humanidade como o conjunto dos humanos; 3) a humanidade como valor mesmo que se expressa como solidariedade, empatia, compaixão, generosidade...

Então, essas definições de Ubuntu aparecem condensadas no aforismo isiZulu “umuntu ngumuntu ngabantu” (a pessoa é pessoa no meio de ou através de outras pessoas), o que levou o arcebispo emérito Desmond Tutu a definir Ubuntu como “eu sou porque nós somos”. O que aqui se destaca é que uma pessoa é constituída como tal desde a comunidade, desde os outros; em outros termos, a alteridade é a condição de possibilidade da constituição do indivíduo.

Isto é fundamental no combate ao racismo. Na América Latina, em geral, e no Brasil, em particular, a Conquista, a colonização europeia (Portugal e Espanha) e a escravidão de indígenas e africanos estabeleceram relações sociais de dominação e exploração baseadas nos fenótipos das pessoas. O homem branco se considerou como humano por antonomásia, e os não-brancos, como menos humanos ou não-humanos. É isto o princípio anti-Ubuntu, é o princípio do “eu sou porque você não é”. Este princípio está na base do racismo, pois quando se discrimina, se exclui uma pessoa pelos seus traços físicos, se nega a ela implicitamente a sua humanidade, pois a humanidade em si não existe concretamente, mas existe em suas diversas expressões (traços físicos, culturais, línguas, religiões etc.).

Negação dos outros e de si

Então, a noção de Ubuntu denuncia o racismo e anuncia uma possibilidade de superá-lo em comunidade, em paz com os outros, já que quando se discrimina racialmente uma pessoa, estamos em presença da perda de humanidade em sentido duplo: o discriminador nega a humanidade do discriminado e, ao mesmo tempo, perde a sua humanidade. E se nos referimos às definições mencionadas anteriormente, a perda de humanidade não é um assunto menor, porque leva junto o fato de se desconectar do mundo, da realidade. Distanciar-se do mundo, da realidade não pode ser outra coisa mais do que uma autodestruição.

IHU On-Line - De que forma é possível, a partir do reconhecimento do outro, superar conflitos?

Jean-Bosco Kakozi - Reconhecer o outro, desde a cosmovisão africana “bantú”, é viver em paz, em harmonia. E aqui não se trata só de reconhecer, mas de responder ao outro, de ser recíproco para com ele ou ela. E esse outro não se limita somente às pessoas, mas se estende aos demais seres — animados e inanimados — com os que constituímos a comunidade cósmica da vida.

Assim, quando reconheço o outro e respondo a ele ou a ela, é também para meu benefício. Primeiro, porque eu o respeito, o considero e o trato como humano, isso deve abrir-me a um encontro qualitativo com ele ou ela e nos possibilita viver com dignidade. Segundo, como vivemos em uma comunidade cósmica da vida, reconhecer, respeitar e responder a outros seres (animados e inanimados) de que eu dependo, significa proteger, cuidar o ambiente que me circunda, o qual coadjuvaria a evitar conflitos sociais, políticos e econômicos. E isso conduziria à “libertação da vida” e, em consequência, beneficiaria a vida de todos, pois a minha vida depende de outras vidas e, desde a visão de Ubuntu, não há nenhuma vida humana que tenha mais valor que a outra.

Confira a entrevista na íntegra!