Grupos Maristas do RS

Precisamos voltar a uma ideia de cultura juvenil associada à educação

Papo Cabeça,

Fonte: Portal Aprendiz 

Desde o começo da última década, as juventudes assumiram um papel central na vida política mundial. São elas que vão às ruas, derrubam governos, criam novas dimensões do comum e propõem saídas para um mundo globalizado. Da Primavera Árabe às Jornadas de Junho, dos Indignados Espanhóis aos Pingüinos Chilenos, os jovens – tão conectados como precarizados – assumem com as mãos as tarefas de se educar e pensar politicamente os novos tempos, reclamando seu lugar na vida moderna.

Reagindo à má inserção laboral, que transforma sua transição para a vida adulta numa “multiplicidade de atalhos que nem sempre conduzem ao final”, elas criam alternativas políticas, de trabalho e educação para sobreviver aos novos tempos, mesmo que muitas vezes vejam seus métodos e meios voltados contra si.

“A realidade é que os movimentos juvenis não têm a capacidade de resolver todos os problemas contra os quais se posicionam”, postula o pesquisador catalão Carles Feixa Pàmpols, em entrevista ao Portal Aprendiz. “No fundo, o que querem não é uma solução para tudo senão fazer parte do processo, ser protagonistas das mudanças. Eles estão reclamando uma renovação geracional na política.”

Doutor em Antropologia Social pela Universidade de Barcelona e honoris causa pela Universidade de Manizales (Colômbia), Carles pesquisa sobre culturas juvenis, a relação entre violência, cultura e espaço público e, nos últimos tempos, tem dedicado seus estudos a discutir movimentos de juventude que tomaram a Espanha em 2011, tendo publicado os artigos La Generación Indignada. Espacio, poder y cultura en los movimientos juveniles de 2011: una perspectiva transnacional e Jóvenes y espacio público. Del estigma a la indignación.

Na entrevista, Carles – que participou em junho deste ano do XIV Congresso Internacional de Cidades Educadoras como palestrante na mesa “Juventudes interpeladas. Dos problemas das juventudes à ampliação de direitos”, em Rosário, na Argentina – detalhou essas ideias e provocou a sociedade a pensar de maneira mais ampla nas políticas públicas para a juventude, saindo do paradigma do “pão e circo” e propondo saídas “mais ambiciosas”.

“Precisamos voltar a uma concepção de cultura juvenil associada à educação. Há um século, pedagogos renovadores como Gustav Wyneken, um social democrata, já propunha que a escola secundária e a cultura juvenil deveriam estar associadas. Ele acreditava na capacidade criativa dos jovens e propunha que a escola deveria se abrir para a cidade, para o trabalho, para o espaço público, dando a eles a oportunidade de aprender criando.”


                                Para pesquisador, é preciso pensar em uma escola
                                   que saia de seus muros e aprenda com a vida

 

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

Portal Aprendiz: O senhor desenvolve pesquisas sobre cultura juvenil e, inclusive, já publicou um livro sobre jovens na América Latina. Como é ser jovem em um mundo digital e globalizado?

Carles Feixa Pàmpols: Para começo de conversa, é impossível definir um perfil unívoco do jovem e da jovem hoje. O que nos cabe falar é de jovens ou de juventudes, por conta de sua diversidade intrínseca. Os processos de globalização nos fazem supor que alguns elementos tecnológicos se universalizam e trariam essa homogeneidade, no entanto, ele também carrega em paralelo um processo contraposto de deslocalização. Ainda assim, existem alguns nexos de união, que correspondem a uma conjuntura histórica e geracional que partem dos papeis das redes digitais, da coletividade, e desembocam em movimentos de resistência global – a primavera árabe, os Indignados, as movimentações na América Latina, os “pingüinos” no Chile. Ou seja, é uma geração cujo imaginário é marcado pelo ativismo.

Por outro lado, há outro elemento em comum que é: a maioria desses jovens são excluídos sociolaborais, ou seja, é uma geração hiper formada – em média – e que vê completamente precarizada sua entrada no mundo do trabalho. Na América Latina, é claro, sempre foi assim, e a desigualdade de classe e gênero é uma constante histórica, mas considero que a precaridade está se estendendo. Isso ajuda a criar o estereótipo do jovem que não estuda e nem trabalha. Ele é uma das faces do capitalismo informacional – que também pode ser chamado de neoliberalismo – que, ao propor um modelo de juventude neoliberal, faz com que o caminho para a vida adulta deixe de ser definido. Ele é substituído por uma multiplicidade de atalhos que nem sempre conduzem ao final.

Aprendiz: Essa noção de atalhos que não conduzem ao final não deixa de lembrar como as movimentações juvenis também muitas vezes redundaram em seu oposto, ou seja, não conseguiram encontrar um caminho para transformar seus sonhos nas transformações que desejavam. Na Primavera Árabe, muitos dos países, como o Egito, acabaram repondo regimes truculentos. No Brasil, as Jornadas de Junho não conseguiram mudanças estruturais e hoje temos um país governado interinamente por homens, velhos, brancos e corruptos, enfim, pela mesma classe dirigente que combateram. Como entender esses sonhos e esses monstros?

Carles: A realidade é que os movimentos juvenis não têm a capacidade de resolver todos os problemas contra os quais se posicionam. São problemas econômicos e sociais profundos, que demandariam uma reestruturação integral da sociedade. O único que podem fazer é teatralizar o que querem combater, dizer que as coisas não funcionam e tentar resolvê-las, pedir que sejam resolvidas. Não se pode querer que os movimentos resolvam os problemas, mas sim que, no mínimo, reivindiquem a outras gerações que busquem apontar viabilidades e intercâmbios como, por exemplo, que a democracia se aprofunde e supere o parlamentarismo, que busquem contrapesos de participação social -que não por acaso o mundo digital já permite ou deveria permitir num futuro imediato.

Ainda assim, acredito que o papel da juventude não é ser o aríete do progressismo ou do conservadorismo – afinal de contas, eles foram a vanguarda do fascismo – mas sim, no fundo, o que querem não é uma solução para tudo, senão fazer parte do processo, ser protagonistas das mudanças, eles estão reclamando uma renovação geracional na política, contra as gerações que se encastelaram no poder acadêmico, político e revolucionário. É claro que é um erro eliminar o antigo como um todo, mas seria um erro da mesma magnitude não dar passagem para as energias criativas que vêm de baixo.

Eu lembro de Francisco Goya [pintor espanhol] que dizia que “os sonhos da razão produzem monstros”. Muitas vezes, esses monstros podem ter rostos simpáticos e nos ajudam a redefinir a mudança social – de forma criativa, positiva e cooperativa – e outras apenas se aproveitam disso para criar um devir de intolerância, como foi o fascismo respondendo ao período de crise dos anos 1920. Temos que entender o que aconteceu no mundo. Teve o Syriza na Grécia e, em muitos países árabes, a primavera não acabou em inverno. Infelizmente, é verdade também que há um crescimento da extrema direita, tanto na Europa como na América Latina, uma volta às décadas conservadoras depois de um avanço progressista democrático.

Quer conferir a entrevista completa? Acesse aqui!