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Barreiras do mundo real se mantêm nas redes digitais

Sobre Juventudes,

A pesquisadora britânica Sonia Livingstone, professora de Psicologia na LSE – London School of Economics and Political Science, com mais de 25 anos de experiência em estudos sobre a relação entre os jovens e a mídia, uniu-se a Julian Sefton-Green, também especializado no assunto, para passarem um ano ao lado de um grupo de adolescentes londrinos e entender como eles vivem. A pesquisa resultou no livro “The Class: living and learning in the digital age” (“A aula: vivendo e aprendendo na era digital”), que pode ser lido online.

O trabalho procurou analisar de perto a mistura de experiências, online ou offline, vividas pelos jovens em seu cotidiano. A pesquisa foi realizada em parceria com uma escola de Londres, na Grã-Bretanha, e envolveu o acompanhamento dos adolescentes, de 13 e 14 anos, na escola, em casa e em outros lugares que eles frequentaram durante um ano escolar, onde foram observadas suas interações sociais. Sonia e Julian conduziram entrevistas com os jovens, seus pais, professores e outros agentes que consideraram relevantes, e mapearam as interações dos adolescentes com redes digitais fora da escola para encontrar padrões de uso e identificar o significado dessas interações para suas oportunidades de aprendizagem.


Jovens não se sentem à vontade de interagir com adultos nas redes sociais

Desconexão e privacidade

A pesquisa levou Sonia e Julian a concluir que há, ainda, muita desconexão num mundo que se diz hiperconectado. “A promessa de uma sociedade mais conectada permanece; mas parece apenas isso, uma promessa”, dizem os autores.

Exemplificando com uma competição internacional de que participaram os alunos da escola que eles acompanharam, os pesquisadores apontam a preocupação com a separação dos diferentes papéis de cada um e como isso influencia nas restrições ao uso de certas tecnologias. Diante da possibilidade de criar um grupo no Facebook para ser usado como fórum de discussões para um trabalho em equipe, a professora da turma teve receio de que os alunos tivessem acesso ao seu perfil na rede social. Os alunos, por si mesmos, criaram um grupo, mas também demonstraram temor de que a professora visse seus perfis.

Os pesquisadores destacaram, ainda, a preocupação da professora analisada com a preservação da autoridade da escola. Um exemplo dessa reserva foi a opção da professora pelo uso de formas de comunicação unidirecionais, como e-mails e mensagens de texto. E sua postura estava de acordo com a da escola como um todo. A justificativa para essa escolha era a de que lidar com muitas respostas enviadas por estudantes ou entrar em muitas negociações diferentes exigiria muito tempo e dedicação, além de por a autoridade da escola em risco. “Como documentamos, tanto professores como jovens têm investido bastante para manter suas esferas de interesses e identidades separadas”, revelam os pesquisadores.

Entre amigos, fortes interações online e offline

Ficou claro para Sonia e Julian, por outro lado, o entusiasmo maior dos alunos para participar presencialmente de pequenos grupos locais de discussão do que de se engajar em redes sociais ligadas à competição, que era um projeto global e contava com canais no YouTube, grupos no Facebook, um Twitter, entre outros recursos. “Vimos realmente pouco uso das tecnologias para conectar pessoas ou atividades entre os locais, especialmente de maneiras que abririam novas oportunidades de aprender e participar”.

No entanto, em situações em que o principal objetivo dos jovens era conectar-se com os amigos quando separados deles fisicamente, prevaleceu o uso considerável de tecnologias – via games ou redes sociais. “Isso por si só nos mostra algo: diante das fronteiras impostas pelos adultos, os jovens aproveitam o potencial das redes digitais para reconectá-los. O mesmo não acontece quando os adultos são os que iniciam essas conexões; nesses casos, os jovens tendem mais a abandonar do que a acompanhar esse movimento, seja ele digital ou não”, explica.

É preciso aprofundar

Em suas pesquisas, Sonia Livingstone tem se dedicado intensamente às questões que envolvem o aspecto da segurança no uso da internet, especialmente no que diz respeito ao universo de crianças e jovens. Porém, ela não se limita a pensar sobre os riscos, que seriam somente parte da questão, e considera importante que haja um aprofundamento em tópicos ligados a educação, mídia e tecnologia no século 21.

“Eu considero superficial a abordagem da sociedade em relação às oportunidades ligadas à mídia digital, até o momento”, diz Sonia. “Muito se tem pensado sobre os riscos. Mas, se você pede que pais e professores citem um bom site para crianças, eles não conseguem nomear um número maior do que os dedos de uma mão. Se você pergunta a eles se os recursos online que os jovens usam oferecem possibilidades de desenvolvimento e aprofundamento de conhecimentos, eles não sabem dizer. Se você pergunta se os jovens encontram online os melhores recursos para alimentar seus interesses individuais, e como eles poderiam saber disso, eles revelam nunca ter pensado sobre o assunto. Compare isso com a reflexão – apoiada por bibliotecários de escolas, por exemplo – sobre a importância dos livros para as crianças. É hora de aprofundar”.

Para refletir

Questionada sobre qual tema Sonia sugeriria para as pessoas que trabalham com educação no mundo todo, ou sobre um problema para resolverem juntos, ela sugere que se pense em como estimular as crianças e jovens a pensar criticamente, e a aprender online de forma ativa e engajada.

“Porque com frequência eles (os especialistas em educação) consideram que ser ‘crítico’ significa aprender a não fazer certas coisas, em vez de encontrar maneiras melhores de fazer essas coisas online. E porque eles se preocupam, nesta era de aversão ao risco em que vivemos, com os jovens realmente se engajando online. E porque eles se preocupam tanto com a proteção dos adultos que se esquecem de que os jovens são agentes, e podem resolver as coisas por eles mesmos, com o nosso apoio”, conclui.

Confira a matéria completa sobre a pesquisa clicando aqui

Fonte: Porvir